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Quais são os sinais de alerta da Perturbação do Espectro do Autismo?

A Perturbação do espectro do autismo (PEA) surge precocemente na infância, aparecendo, na maioria dos casos, antes dos 30 meses. Alias, vários estudos descrevem que os pais notam alterações no desenvolvimentos dos filhos entre os 16 e os 20 meses de idade. Contudo, se o atraso de desenvolvimento for grave, os sintomas podem ser reconhecidos muito antes.

Alguns dos sinais precoces de uma PEA são:

  • Ausência de resposta ao nome;
  • Atraso no desenvolvimento da linguagem;
  • Dificuldades no contacto visual;
  • Dificuldades na atenção conjunta (partilhar a atenção de outra pessoa acerca de um objecto ou acontecimento, olhando alternadamente para o objecto e para a pessoa);
  • Dificuldades em sorrir como resposta a um sorriso;
  • Pobreza na relação com o outro, focando-se mais nos objectos;
  • Isolamento (ausência de desejo de estar perto das outras pessoas, não procurando essa interacção ou afastando-se dela);
  • Diminuição ou mesmo ausência da utilização de gestos como apontar, dizer adeus ou estender os braços para receber colo.

O que causa a PEA?

Nas últimas décadas a pesquisa científica na área da PEA tem sido imensa. Actualmente, é quase unânime a sua origem multifactorial e heterogénea. Existirá, segundo alguns autores, uma base genética, responsável pela susceptibilidade para a perturbação, ocorrendo sobre esta, a acção de factores ambientais, que poderá ser favorável ou desfavorável.

Quanto aos factores genéticos:

  • A perturbação do Espectro do Autismo tem uma forte componente hereditária, com estudos a sugerirem que entre 50–90% do risco está associado a factores genéticos. As diferentes combinações de factores genéticos podem conduzir a variações na apresentação comportamental da PEA.

Quanto a factores ambientais:

  • A PEA relaciona-se principalmente com factores ambientais que têm influência no neurodesenvolvimento, tais como idade avançada dos pais, infecções maternas durante a gravidez, exposição a certos medicamentos, complicações durante a gravidez ou parto, ou nascimento prematuro.

Os casos de PEA têm aumentado nos últimos anos?

Esta questão levanta alguma polémica, sendo que alguns autores referem  não existir um suporte epidemiológico que confirme o aumento dos casos de PEA. No entanto, têm também sido dadas algumas explicações para este “aparente” aumento de diagnósticos:

  • Melhor conhecimento desta perturbação entre os pais, profissionais de saúde e população em geral, o que leva a que os casos sejam avaliados e diagnosticados mais precocemente;
  • Maior clareza na definição dos critérios de diagnóstico;
  • Criação de mais e melhores instrumentos de diagnóstico.

Qual é a prevalência da PEA?

Os dados mais recentes divulgados pela Organização Mundial de Saúde (OMS) referem que 1 em cada 100 crianças em idade escolar tem PEA,  sendo o número de casos superior no sexo masculino. Em Portugal, embora o último estudo feito no nosso país date de 2005, estima-se que 1 em cada 1000 crianças em Portugal sofram de PEA.

Como é feito o diagnóstico de uma PEA?

O diagnóstico de uma PEA deverá ser o resultado de uma avaliação clínica, por um médico especialista (psiquiatra da infância e adolescência), com a colaboração de uma avaliação efectuada por uma equipa multidisciplinar, composta por Psicologia, Terapia da Fala, Terapia Ocupacional, Psicomotricista, entre outras.
A avaliação deverá ser baseada na história de desenvolvimento, relatos dos pais, observação e avaliação da criança em questão e do seu comportamento em diferentes contextos. 

Nos adultos a avaliação não é diferente: há recolha da história do desenvolvimento e padrões de comportamento ao longo das várias fases de vida, com recurso à percepção subjectiva da pessoa e, quando é possível, à percepção de familiares próximos que tenham acompanhado o crescimento da pessoa. Quer em idade jovem, quer em idade adulta, deverá existir uma avaliação formal, com a aplicação de testes de rastreio, de diagnóstico e de avaliação do desenvolvimento e de competências.

Quais os critérios actuais de diagnóstico da PEA?

As características da PEA estão descritas em sistemas de classificação médicos, como o DSM (Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders, ou seja, Manual de Diagnóstico e Estatística das Perturbações Mentais da American Psychiatric Association (APA)) ou o ICD (Manual de Classificação Internacional das Doenças, elaborado pela OMS). 

Segundo o DSM-V, existem apenas dois grupos de critérios de diagnóstico para a PEA:

  • Défices persistentes na comunicação social e interacção social, em vários contextos (no qual estão incluídas as alterações na comunicação, interacção social e dificuldades na imaginação);
  • Padrão de comportamento, interesses e actividades restritos e repetitivos.

No DSM-IV existiam cinco sub-tipos de Perturbações do Espectro do Autismo. Contudo, com a introdução do DSM-V, passa a existir um só diagnóstico correspondente à PEA, sendo usados critérios de gravidade: leve, moderado ou grave. Com esta alteração caiu formalmente a classificação do Síndrome de Asperger.

 

Que tratamentos e intervenções são habitualmente usados na PEA?

  • Abordagens que se focam em melhorar competências específicas do percurso de desenvolvimento, como por exemplo a terapia da fala, a terapia ocupacional, a terapia de integração sensorial, a fisioterapia 
  • Intervenções focadas no desenvolvimento de competências sociais 
  • Intervenções farmacológicas
  • Intervenção psicológica: sobretudo a terapia cognitivo-comportamental. As intervenções comportamentais focam-se em mudar comportamentos, intervindo sobre os antecedentes e/ou consequências do mesmo.

Porque é que se usamedicação para as pessoas com PEA?

A medicação não é utilizada para curar a PEA, porque esta não tem cura conhecida. O objectivo principal do tratamento farmacológico é o controlo de um sintoma em particular, ou de um conjunto de manifestações clínicas frequentemente associadas à PEA, como por exemplo:

  • Doença mental: perturbações de ansiedade, perturbação de hiperactividade e défice de atenção, depressão, perturbação obsessiva-compulsiva, comportamentos auto-lesivos, agressividade, perturbações do comportamento alimentar;

  • Perturbações do desenvolvimento: défice intelectual, perturbações da linguagem;

  • Doenças neurológicas: epilepsia, perturbações do sono, síndrome de tourette;

  • Alterações/Doenças orgânicas: perturbações gastrointestinais, desregulação do sistema imunitário, obesidade.

A Perturbação do Espectro do Autismo é uma condição complexa, com manifestações diversas e uma base neurobiológica bem estudada. Embora ainda existam muitas questões em aberto, a ciência tem avançado significativamente na compreensão das suas causas, prevalência e abordagens de intervenção eficazes.

Mas se sabemos tanto sobre o autismo, por que razão continuam a circular tantos mitos? Será verdade que todas as pessoas autistas têm capacidades extraordinárias? E será mesmo que as crianças autistas não criam laços afectivos? 

Na próxima parte do artigo, vamos desconstruir algumas das crenças erradas mais comuns sobre o autismo – e descobrir o impacto real que esses mitos podem ter na vida das pessoas com esta doença e nas suas famílias.

 

Referências bibliográficas

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