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Já Parou para Pensar sobre a Sua Saúde Mental?

   

A saúde mental tornou-se, nos últimos anos, um tema cada vez mais falado, discutido e popularizado em séries, filmes e anúncios, em especial durante e após a pandemia COVID-19. Mas afinal, em que consiste (ter) saúde mental, como é que interfere na nossa vida e relações connosco e com o outro, qual o seu impacto na saúde física, e como a podemos melhorar?

O que é (ter) saúde mental?

Quando falamos sobre saúde mental, uma das componentes da saúde global, falamos sobre o estado de bem-estar em que conseguimos compreender as nossas capacidades, lidar com os desafios e tensões normais da vida, trabalhar de forma produtiva e frutífera e em que somos capazes de contribuir para a nossa comunidade (1). É quando temos saúde mental que estamos aptos a atingir o nosso potencial nas diversas áreas da vida, sentindo-nos bem connosco próprios, conseguindo gerir as nossas emoções e sendo capazes de construir relações positivas com os outros.

Assim, é fácil entender que a saúde mental é um conceito complexo e multidimensional que não se resume a um estado binário de saúde versus doença e que engloba os componentes de bem-estar emocional, cognitivo, social e espiritual:

  • Bem-estar emocional: que consiste na capacidade de identificar, expressar e regular as emoções (nossas e dos outros); e usar os nossos sentimentos para motivar, planear e atingir os nossos objectivos de vida (2). É importante para criar relações positivas, gerir o nosso trabalho e vida pessoal e manter um sentido de propósito.
  • Bem-estar cognitivo: ou bom funcionamento cognitivo, que possibilita a capacidade de pensar de forma organizada, raciocinar, memorizar informação e tomar boas decisões (3). É o que nos permite manter a nossa independência, atingir objectivos e participar de uma forma plena na sociedade.
  • Bem-estar social: que se refere à aptidão para construir relações positivas com os outros, ter uma sensação de pertença, e participar em actividades sociais (4). Tem um impacto muito importante não só na saúde mental, como na saúde física, qualidade de vida e longevidade.
  • Bem-estar espiritual: que se relaciona com a sensação de conexão a algo maior que nós, quer seja um poder superior, a natureza, ou um sentido de propósito ou significado na vida (5). Dá-nos esperança, conforto e perspectiva.

A saúde mental decorre, pois, num continuum, que abrange diferentes níveis de funcionamento, nas diferentes áreas, que vão desde o bem-estar, passando pelo sofrimento psicológico, até à doença mental. Este continuum é objectivável em pessoas com doença mental que, em domínios não afectados pela doença, não apresentam disfuncionalidade e podem até ser excepcionais. Sabemos também, que um certo grau de desconforto (como sintomas ligeiros ou transitórios de ansiedade ou depressão) pode ser útil para o desenvolvimento de estratégias de coping adaptativas, uma vez que todos nós teremos, inevitavelmente, de enfrentar perdas na nossa vida.

Ter (boa) saúde mental não é, portanto, apenas a ausência de doença. Compreender este conceito de continuidade permite adoptar uma postura preventiva e uma atitude promotora de bem-estar.

A saúde mental influencia a saúde física?

O conceito da dualidade cartesiana, mente versus corpo, encontra-se ultrapassado desde há muitos anos. No entanto, só mais recentemente é que a interacção contínua entre ambos tem sido mais investigada. 

Tanto a mente como o corpo são afectados por factores fisiológicos, emocionais e sociais, não agindo como sistemas estanques, impermeáveis às alterações de cada um deles. Pessoas com doença mental apresentam um risco mais elevado de várias doenças físicas crónicas e pessoas com estas doenças têm o dobro da prevalência de ansiedade e depressão do que a população geral (6). Exemplos concretos são:

  • a associação entre depressão e o risco aumentado de várias doenças físicas, como diabetes, doença cardíaca ou acidente vascular cerebral (7).
  • a associação entre cancro e depressão, resultando em diminuição da qualidade de vida, aumento do tempo de doença, e menor sobrevida (8).

Também o papel de factores como a inflamação crónica e a diversidade do microbioma na génese e/ou manutenção de doença mental parece ter crescente evidência, apesar de os mecanismos fisiopatológicos ainda não estarem totalmente esclarecidos (9).

Então, como promover uma boa saúde mental?

As atitudes de promoção de saúde mental têm como objectivo aumentar o bem-estar, competência e resiliência ao longo da vida (1). Os domínios-chave que definem uma boa saúde mental, e nos quais podemos actuar são:

  • Emoções: estados afectivos (alegria, tristeza, surpresa, medo, raiva, nojo) com propriedades estimulantes ou motivacionais. São elas que nos permitem explorar as nossas preocupações, intenções e acções. A capacidade de modularmos a consciência das nossas emoções, melhorarmos a nossa regulação emocional e permitirmos uma expressão emocional mais efectiva irá melhorar a nossa saúde mental. Por exemplo, favorecendo e valorizando as emoções positivas, e aceitando que as emoções negativas fazem parte da vida. (10)
  • Comportamentos: são as condutas e acções que tomamos em função de um estímulo que nos é apresentado. Tal como referimos no nosso artigo acerca da Medicina de Estilo de Vida, a adopção de comportamentos saudáveis, apropriados, e adaptativos, como dormir bem, não consumir substâncias nocivas, ou praticar hobbies, são importantes para promover uma boa saúde mental e permitir atingir o nosso potencial máximo. (11)
  • Competências cognitivas: consistem na capacidade de processar e reagir à informação apresentada, no contexto educacional, académico, laboral e restantes áreas da vida diária. O estímulo das capacidades cognitivas, através da leitura, aprendizagem de novas competências, e outras actividades, permite desenvolver a capacidade de decisão, flexibilidade cognitiva e resolução de problemas. (12)
  • Valores e auto-percepção: os valores subjectivos referem-se às crenças sobre o que é bom ou mau para nós. A auto-percepção é o conjunto de crenças sobre as nossas próprias características. O conhecimento sobre o nosso estado interno subjectivo é importante no reconhecimento do nosso valor e das nossas capacidades e qualidades positivas, de modo a desenvolver uma boa auto-estima, que nos permita ter uma vida com valor. A reflexão, meditação e o acompanhamento psicológico são facilitadores desse processo de autoconhecimento. (13)
  • Estratégias de autocuidado: são competências práticas e diárias que consistem em conseguirmos tomar conta de nós próprios e funcionar e responder às exigências do ambiente que nos rodeia. A resiliência, que é a capacidade de lidar com a adversidade, tem uma influência importante na aquisição e implementacão destas estratégias. Exemplos destas são a prática e priorização de actividades (como desporto, contacto social, ou hobbies) que nos trazem prazer e que nos fazem bem, no nosso dia-a-dia, independentemente das exigências externas que nos rodeiam. (14)

  • Competências sociais: referem-se a um grupo lato de capacidades que nos permitem interagir e comunicar uns com os outros. De modo a obter e manter relações pessoais de sucesso, uma componente fundamental da saúde mental e física, é necessário conhecer as regras sociais e construir capacidades para comunicar e interagir com o outro. A aquisição de competências sociais aumenta a nossa capacidade de iniciar e manter relações com significado, e pode ser promovida através da realização de actividades em grupo, quer seja com pessoas da nossa esfera social ou com desconhecidos, como grupos de trekking, corrida, clubes de leitura, crochet, ou outras que impliquem convívio social. (15)
  • Relações familiares e significativas: a capacidade de estabelecer e manter relações saudáveis, com valor e significado com as pessoas importantes da nossa vida, permite promover interacções positivas. (14)
  • Saúde física: é um dos componentes que integra a definição de saúde, estando intimamente ligada à saúde mental, como vimos previamente. Este domínio inclui atitudes, emoções e comportamentos em relação à saúde física e aos cuidados com a mesma. Estes podem ser melhorados através de contactos regulares com cuidados de saúde, actividades promotoras de saúde (boa alimentação, prática de actividade física, cuidados com o sono), e aumento da literacia sobre saúde física. (1) 
  • Saúde reprodutiva e sexual: consiste no bem-estar físico, emocional, mental e social em relação à sexualidade. As relações sexuais positivas requerem boas experiências prévias, sendo importante a promoção de hábitos e comportamentos saudáveis e protectores em relação à saúde sexual.  (16)

  • Desempenho académico e profissional: inclui a aquisição e utilização de conhecimento, a assiduidade, o comportamento ajustado e a adaptação ao contexto. O ambiente, as relações interpessoais e a avaliação dos pares e chefias, podem ter um impacto na saúde mental individual e no desempenho do indivíduo, e vice-versa. É importante a reflexão sobre este âmbito da nossa vida, nomeadamente sobre a interferência no nosso bem estar mental e físico, e sobre o equilíbrio entre a vida profissional/académica e a vida pessoal, social e familiar, estabelecendo limites e períodos de descanso e lazer.(14)
  • Atitude para com a doença mental: dos outros e do próprio (estigma e autoestigma), face ao sofrimento psicológico ou doença mental, que pode impedir o recurso a ajuda informal (amigos e/ou família) ou formal (psicoterapeuta e/ou psiquiatra). Uma das formas de reduzir o estigma é através da educação e aumento de conhecimento sobre doenças mentais (17). O nosso artigo acerca da diferença entre Psicologia e Psiquiatria também ajuda a desmistificar alguns estigmas.
  • Literacia em saúde: que nos permite compreender melhor o nosso estado de saúde e as áreas em que podemos intervir para nos sentirmos melhor. É importante a escolha de recursos com informação fidedigna, devendo sempre optar-se por sites oficiais como  Direcção Geral de Saúde, Organização Mundial de Saúde, Centre for Disease Control ou National Health System, ou de organizações reconhecidas na sua área como a Mind ou a Blackdog Institute. (18)

Existem ainda outros domínios importantes para a saúde mental, como o sentimento de pertença, a estabilidade socio-económica (um dos factores com mais impacto na saúde, ou doença mental) (19), e, obviamente, os processos neurobiológicos individuais (neuroquímico, genéticos, epigenéticos). (20)

Uma vez que a saúde mental é uma das componentes da saúde global, é importante estarmos atentos às suas alterações, se transitórias ou permanentes, tal como fazemos com a nossa saúde física. Novamente, e da mesma forma que investimos na promoção da saúde física, também devemos priorizar a nossa saúde mental e tomar acções que vão ao encontro de um estado de bem-estar, construção e florescimento. 

Referências bibliográficas:

  1. World Health Organization. (n.d.). Mental health. World Health Organization. https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/mental-health-strengthening-our-response 
  2. Salovey, P., & Mayer, J. D. (1989-1990). Emotional intelligence. Imagination, Cognition and Personality, 9(3), 185–211.
  3. Cognitive health and older adults [Internet]. U.S. Department of Health and Human Services; [cited 2023 Aug 31]. Available from: https://www.nia.nih.gov/health/cognitive-health-and-older-adults#:~:text=Cognitive%20health%20%E2%80%94%20how%20well%20you,emotions%20(both%20pleasant%20and%20unpleasant) 
  4. Keyes CLM. Social Well-Being. Social Psychology Quarterly. 1998 Jun;61(2):121–40.
  5. Ellison CW. Spiritual Well-Being: Conceptualization and Measurement. Journal of Psychology and Theology. 1983 Dec;11(4):330–8.
  6. Barnett K, Mercer SW, Norbury M, Watt G, Wyke S, Guthrie B. Epidemiology of multimorbidity and implications for health care, research, and medical education: a cross-sectional study. The Lancet [Internet]. 2012 Jul;380(9836):37–43.
  7. National Institute of Mental Health. Chronic Illness and Mental Health: Recognizing and Treating Depression [Internet]. National Institute of Mental Health. 2021. Available from: https://www.nimh.nih.gov/health/publications/chronic-illness-mental-health
  8. Green R. The Connection Between Mental Health and Physical Health [Internet]. Verywell Mind. 2023. Available from: https://www.verywellmind.com/the-mental-and-physical-health-connection-7255857
  9. Osimo EF, Baxter LJ, Lewis G, Jones PB, Khandaker GM. Prevalence of low-grade inflammation in depression: a systematic review and meta-analysis of CRP levels. Psychological Medicine [Internet]. 2019 Sep 1;49(12):1958–70. 
  10. Greenberg LS, Pascual-Leone A. Emotion in psychotherapy: A practice-friendly research review. Journal of Clinical Psychology. 2006;62(5):611–30.
  11. World Health Organization. Promoting Mental Health [Internet]. 2004 p. 12. Available from: https://apps.who.int/iris/bitstream/handle/10665/42940/9241591595.pdf
  12. Sala G, Gobet F. Cognitive Training Does Not Enhance General Cognition. Trends in Cognitive Sciences [Internet]. 2019 Jan;23(1):9–20. 
  13. Jordan CH, Spencer SJ, Zanna MP, Hoshino-Browne E, Correll J. Secure and defensive high self-esteem. Journal of personality and social psychology. 2003 Nov;85(5):969.
  14. Fusar-Poli P, Salazar de Pablo G, De Micheli A, Nieman DH, Correll CU, Kessing LV, et al. What is good mental health? A scoping review. European Neuropsychopharmacology [Internet]. 2020 Feb 1;31(31):33–46.
  15. Van der Graaff J, Carlo G, Crocetti E, Koot HM, Branje S. Prosocial Behavior in Adolescence: Gender Differences in Development and Links with Empathy. Journal of Youth and Adolescence. 2017 Nov 28;47(5):1086–99.
  16. World Health Organization. Defining sexual health: report of a technical consultation on sexual health, 28-31 January 2002, Geneva. World Health Organization; 2006.
  17. Haugen PT, McCrillis AM, Smid GE, Nijdam MJ. Mental health stigma and barriers to mental health care for first responders: A systematic review and meta-analysis. Journal of Psychiatric Research. 2017 Nov;94:218–29.
  18. Kutcher S, Wei Y, Coniglio C. Mental Health Literacy: Past, Present, and Future. The Canadian Journal of Psychiatry [Internet]. 2016 Mar;61(3):154–8. Available from: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC4813415/
  19. Firth J, Ward PB, Stubbs B. Editorial: Lifestyle Psychiatry. Frontiers in Psychiatry. 2019 Aug 26;10.
  20. Osório C, Probert T, Jones E, Young AH, Robbins I. Adapting to Stress: Understanding the Neurobiology of Resilience. Behavioral Medicine. 2016 Apr 21;43(4):307–22.