A navegação pelos terrenos “psi” pode ser difícil, principalmente nas primeiras viagens. A Psiquiatria e a Psicologia têm algumas paragens em comum, mas divergem bastante nos caminhos que percorrem. Em conjunto, viajam em direcção a uma saúde mental mais completa.
A Psiquiatria e a Psicologia diferem na sua definição, origens históricas, formação dos profissionais e cuidados prestados às pessoas que assistem.
Definição e Origens Históricas
A Psicologia é a ciência que estuda a mente e o comportamento humanos e procura perceber como as pessoas pensam, sentem e se comportam (1). Muitas das questões da Psicologia dos nossos dias foram levantadas pelos filósofos da Grécia Antiga, séculos antes do desenvolvimento do pensamento científico nos moldes em que o conhecemos. Assim, a Psicologia surgiu como uma área da Filosofia que se debruçava sobre a mente e o seu funcionamento e estabeleceu-se, depois, no século XX, como uma disciplina científica (2).
Actualmente, engloba áreas diversas de investigação (experimental, biológica, cognitiva, do desenvolvimento, da personalidade, social) e de actuação (organizacional, de educação, neuropsicologia, Psicologia da saúde e Psicologia clínica) (1). A Psicologia Clínica envolve a aplicação dos conhecimentos da disciplina da Psicologia ao contexto do indivíduo e à avaliação e tratamento não farmacológico das disfunções e perturbações psicológicas e das doenças mentais (3). Assim, são os psicólogos clínicos que asseguram o acompanhamento dos utentes em consulta.
A Psiquiatria é uma área da Medicina centrada no diagnóstico, tratamento e prevenção das doenças mentais. A História da Psiquiatria é tão antiga como a da própria Medicina e remonta, pelo menos (e à semelhança da Psicologia), à Grécia Antiga. Nesta altura, em que se davam os primeiros passos no conhecimento sobre o funcionamento do corpo e surgiam teorias sobre os mecanismos de doença, havia também um interesse sobre as doenças mentais e sobre os seus correlatos biológicos. No entanto, foi apenas no século XIX que se iniciou a observação sistematizada das pessoas com doença mental, se criou uma abordagem (fenomenológica, de pendor filosófico) e uma linguagem (a psicopatologia) definidas, e a Psiquiatria surgiu como especialidade médica (4).
As fronteiras entre as várias especialidades nem sempre foram estanques, sendo que algumas doenças tratadas pela Psiquiatria passaram para a lista das doenças neurológicas, à medida que surgiam hipóteses mais concretas sobre o seu substrato orgânico. Assim, as fronteiras da Psiquiatria foram, numa fase inicial, essencialmente em confronto com a Neurologia. Curiosamente, foi um neurologista, Charcot, que usava a hipnose como tratamento, que orientou e inspirou Freud a criar uma forma de “cura pela fala”, que evoluiu para a psicanálise, a primeira forma de psicoterapia. Nesta altura, os tratamentos físicos (lobotomia, coma insulínico) eram ainda primários, pouco dirigidos, e pouco ou nada eficazes, pelo que a psicanálise dominou as linhas teóricas e terapêuticas da Psiquiatria. O primeiro psicofármaco, a clorpromazina, surgiu apenas na década de 50, possibilitando o início da revolução no tratamento das doenças mentais e a desinstitucionalização dos doentes que residiam nos antigos asilos (5).
Assim, a psicanálise foi durante várias décadas o paradigma de tratamento da doença mental, com algumas consequências nefastas. Inicialmente dominada por vultos da Medicina (e pela atitude ditatorial de Freud, pouco permeável a um pensamento distinto do seu), só mais tarde contou com o contributo de psicólogos, como Erik Erikson, psicanalista que focou o seu trabalho no desenvolvimento infantil (2). Deste modo, a primeira psicoterapia surgiu pela mão de um médico e foi o ponto de encontro inaugural entre a Psiquiatria e a Psicologia. Ambas as disciplinas se expandiram extraordinariamente nas décadas seguintes, mantendo, no entanto, em comum a intervenção psicoterapêutica.
Diferenças na formação académica e profissional de psiquiatras e psicólogos
A área de formação de que partem psicólogos e psiquiatras é diferente:
- Os psicólogos têm formação no ensino superior no curso de Psicologia, sendo a especialização em Psicologia Clínica realizada durante a etapa do Mestrado. A formação em Psicologia envolve o estudo científico dos processos mentais e de comportamento, e os psicólogos têm, tipicamente, um conhecimento mais aprofundado relativamente às teorias e mecanismos de funcionamento psicológico, e têm formação mais extensa em técnicas conducentes à mudança psicológica (1).
- Os psiquiatras completam o curso de Medicina e realizam depois especialização na área da Psiquiatria e Saúde Mental. A formação dos psiquiatras assenta no modelo médico e numa abordagem biopsicossocial da doença. Os psiquiatras têm conhecimento sobre os factores biológicos, psicológicos e sociais que contribuem para a doença mental, e centram-se no seu diagnóstico, tratamento e prevenção. Embora os psiquiatras tenham também uma abordagem compreensiva da pessoa no seu contexto, centram-se na formulação de um diagnóstico segundo o modelo médico e no desenho de um plano de intervenção (4).
Tanto os psicólogos como os psiquiatras podem realizar formação em psicoterapia, sob orientação dada em Sociedades de Psicoterapia, que contam com a aprovação por parte da Ordem Profissional dos Psicólogos (https://www.ordemdospsicologos.pt/pt/especialidades/sociedades_associacoes_psicoterapia) (8)

Devo ir ao psiquiatra ou ao psicólogo?
Esta escolha pode ser tão complexa como delimitar o sofrimento psicológico e a doença mental: nalguns casos, as diferenças são óbvias, mas uma parte da população vive na fronteira.
De facto, embora haja doentes assistidos apenas em Psicologia ou apenas em Psiquiatria, a maioria beneficia de uma abordagem integrada.
Tipicamente:
- As pessoas que pretendem trabalhar certos aspectos do funcionamento ou da personalidade, mas que não têm disfunção significativa, têm acompanhamento principalmente em Psicologia (9).
- No outro extremo, temos pessoas com doença mental grave, para quem é essencial o acompanhamento em Psiquiatria e a intervenção farmacológica, que pode ser complementada com intervenção por Psicologia (10, 11)
- A maioria da população que chega às nossas consultas padece das chamadas doenças mentais “comuns”, como perturbações de ansiedade ou depressão, e a evidência científica recomenda o tratamento combinado (psicofarmacológico e psicoterapêutico) (12).
Claro que há que ter sempre em conta factores individuais, relacionados com as características da doença e com os sintomas, mas também com a história de vida da pessoa e com a sua situação actual, para definir exactamente o que será mais útil:
Não há duas pessoas, duas doenças, ou dois momentos iguais.
O acompanhamento em Psicologia permite que a pessoa tenha um espaço seguro e validante, no contexto de uma relação terapêutica, que deve ser baseada na aceitação incondicional positiva, congruência e autenticidade. No decorrer do processo, o/a psicólogo/a conduz o utente pelas várias fases da intervenção psicológica, nomeadamente (9):
- avaliação inicial;
- construção da relação;
- intervenção psicoterapêutica;
- encerramento do processo psicoterapêutico.

No final, pretende-se a construção da autonomia e a potenciação do autoconhecimento, de uma forma genuína e integrada.
Não é raro encontrarmos pessoas permeáveis a uma abordagem psicológica, mas hesitantes em ser observadas por um psiquiatra. Tal pode estar relacionado com:
- o estigma em relação à doença mental e aos psicofármacos.
- a ideia de que os psiquiatras “só prescrevem medicamentos”.
A própria consulta de Psiquiatria – porque é um momento em que a pessoa pode “ventilar”, perceber que os seus sintomas e o seu sofrimento são reconhecidos, correspondem (ou não) a um diagnóstico e têm um tratamento possível – pode ser terapêutica. Para além disso, o psiquiatra será capaz de contextualizar os sintomas no seu estado de saúde e de investigar se estes poderão estar relacionados com uma doença física desconhecida ou já diagnosticada, promovendo a melhoria dos vários aspectos da sua saúde geral. Por último, o tratamento sugerido no final da consulta de Psiquiatria deve incluir uma vertente não farmacológica (medidas de estilo de vida, psicoterapia), para além da eventual medicação, e estas decisões são discutidas e partilhadas com quem vem à consulta.
Faz sentido, quando há este duplo acompanhamento, e quando a pessoa o autoriza, existir uma articulação entre os profissionais que acompanham um mesmo caso, para discussão diagnóstica, desenho de um plano terapêutico, e avaliação do progresso alcançado.
De facto, o trabalho em equipa permite que haja mais do que uma perspectiva, vinda de diferentes profissionais e diferentes áreas de saber, em relação ao mesmo problema, e permite que haja coordenação e congruência relativamente à intervenção terapêutica. A maioria das pessoas sente-se mais tranquila ao saber que o/a psiquiatra e o/a psicólogo/a se mantêm em contacto.
Os moldes do acompanhamento em Psicologia ou Psiquiatria podem diferir e dependem de factores relacionados com a pessoa, com a doença, com o próprio profissional, e com a fase do acompanhamento, mas têm ambos como objectivo a melhoria da saúde mental.
Caso persistam dúvidas, ou sinta que há aspectos do seu tratamento que não estão a ser adequadamente cobertos, poderá sempre conversar com o seu profissional de referência, e pôr as suas dúvidas.
Referências bibliográficas:
- APA. APA dictionary of Psychology [Internet]. Washington: APA, 2023 (acesso a 30 de Agosto de 2023). Disponível em: https://dictionary.apa.org/psychology
- Benson N, Collin C, Grand V, Ginsburg J, Lazyan M, Weeks M. Travassos S, Abreu C, Cardoso A, tradutores. O livro da Psicologia. Londres (RU): DK; 2014
- APA. APA dictionary of Psychology [Internet]. Washington: APA, 2023 (acesso a 30 de Agosto de 2023). Disponível em: https://dictionary.apa.org/clinical-psychology
- Geddes JR, Andreasen NC. New Oxford textbook of psychiatry. Oxford University Press, EUA; 2020 Fev 20.
- Lieberman JA. Psiquiatras: uma história por contar. Nova Iorque (EUA): Temas & Debates; 2016
- Ordem dos Psicólogos Portugueses. Formação [Internet]. Ordem dos Psicólogos Portugueses, 2011 (acesso a 30 de Agosto de 2023). Disponível em https://www.ordemdospsicologos.pt/pt/formacao
- Portaria nº 340/2016. DR I Série. 249 (29-12-2016). Disponível em: https://ordemdosmedicos.pt/wp-content/uploads/2017/09/Portaria_340_2016_12_29.pdf
- Ordem dos Psicólogos Portugueses. Sociedades e Associações de Psicoterapia Protocoladas. [Internet]. Ordem dos Psicólogos Portugueses, 2011 (acesso a 30 de Agosto de 2023). Disponível em: https://www.ordemdospsicologos.pt/pt/especialidades/sociedades_associacoes_psicoterapia
- National Institute of Mental Health. Psychotherapies. [Internet]. National Institute of Mental Health (acesso a 30 de Agosto de 2023). Disponível em: https://www.nimh.nih.gov/health/topics/psychotherapies
- Keepers GA, Fochtmann LJ, Anzia JM, Benjamin S, Lyness JM, Mojtabai R, Servis M, Walaszek A, Buckley P, Lenzenweger MF, Young AS. The American Psychiatric Association practice guideline for the treatment of patients with schizophrenia. American Journal of Psychiatry. 2020 Sep 1;177(9):868-72.
- Yatham LN, Kennedy SH, Parikh SV, Schaffer A, Bond DJ, Frey BN, Sharma V, Goldstein BI, Rej S, Beaulieu S, Alda M. Canadian Network for Mood and Anxiety Treatments (CANMAT) and International Society for Bipolar Disorders (ISBD) 2018 guidelines for the management of patients with bipolar disorder. Bipolar disorders. 2018 Mar;20(2):97-170.
- National Institute for Health and Care Excellence (NICE). Depression in adults: treatment and management. Londres (RU): National Institute for Health and Care Excellence (NICE); 2022 Jun 29.
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