Quando estamos doentes, vamos ao médico. Isto é verdade para a maioria das doenças, e para a maioria das especialidades médicas. No entanto, na prática clínica de Psiquiatria, é frequente percebermos que as pessoas demoraram meses, por vezes anos, até procurarem ajuda. Esta realidade merece a nossa atenção, visto que o diagnóstico precoce é um importante factor de prognóstico na doença mental: quanto mais cedo identificarmos a doença e iniciarmos o tratamento, mais rápida e completa é a recuperação (1,2,3). Embora a literatura científica se debruce mais frequentemente sobre a demora dos prestadores de cuidados de saúde em fornecer assistência perante um pedido de consulta, numa óptica de funcionamento das instituições, sabemos que é também muito importante o tempo que decorre desde o início dos sintomas até ao momento em que a pessoa pede ajuda. Um estudo da Organização Mundial de Saúde, que recolheu dados de 15 países identificou tempos medianos de atraso na procura de tratamento de 3 a 30 anos para as perturbações de ansiedade, de 1 a 14 anos para as perturbações do humor, e de 6 a 18 anos para as adicções (4). Os homens, as pessoas mais velhas e os casos de início mais precoce tinham tipicamente tempos mais longos de procura de ajuda. Outros estudos confirmam atrasos na procura de ajuda de mais de uma década (5).
Identificar as razões que explicam esta hesitação em procurar ajuda pode ser um primeiro passo para desbloquear algumas crenças subjacentes e, esperamos, facilitar a chegada ao consultório.
Porque é, afinal, tão difícil marcar consulta de Psiquiatria?

Por desconhecimento em relação à doença mental
A maioria de nós está familiarizada com os sinais de alarme do nosso corpo: não é difícil atribuirmos importância a uma febre persistente, a um pé inchado ou a uma tosse que não desaparece. Isto acontece porque aprendemos, ao longo da vida, qual é o funcionamento normal do nosso organismo; recebemos informação dos pais, educadores e médicos, reconhecemos estes sintomas como possíveis indicadores de doença, e procuramos ajuda quando persistem ou interferem com o nosso dia-a-dia. No entanto, nem todos recebemos o mesmo tipo de informação em relação ao funcionamento “normal” da nossa mente, ou seja, à forma como funcionam os nossos pensamentos, emoções e comportamentos. É fácil desvalorizar o que sentimos, pensar que é “só uma fase” ou que, se nos esforçarmos mais, as coisas vão melhorar. Ao fazê-lo, corremos o risco de nos afastarmos cada vez mais do nosso funcionamento prévio e de nos habituarmos a uma versão menos feliz, menos realizada e mais apagada de nós próprios. O sofrimento pode ser, até certo ponto, relativizado, mas não deve ser desvalorizado. Embora possa haver, de facto, períodos de sintomas ligeiros que são passageiros, a presença persistente de sintomas que impedem a pessoa de se sentir como habitual ou de fazer a sua vida como desejaria, requer assistência médica.

Porque é difícil partilhar o que sentimos
Socialmente, e mesmo mais intimamente, tendemos a evitar as emoções negativas. Pode ser difícil abrirmo-nos com alguém que acabámos de conhecer, principalmente quando são pensamentos ou emoções que nos causam sofrimento, ou que nós próprios consideramos inaceitáveis.
No entanto, esta partilha pode trazer um enorme alívio. Quando falamos do que pensávamos ser o mais inestimável e incompreensível que há em nós, e nos sentimos ouvidos, compreendidos e validados, podemos sentir-nos muito mais livres.
Falar dos sintomas com um psiquiatra pode, ainda, ajudar a iluminar outras áreas do nosso funcionamento que até então não tínhamos reparado que tinham mudado. Os síndromes psiquiátricos são conjuntos de sinais e sintomas que ocorrem em conjunto com uma frequência ou intensidade superiores ao esperado para a população saudável. Quem repara que está mais triste pode ainda não ter notado que se sente mais irritável e com menos paciência para as pessoas à sua volta, o que talvez explique as dificuldades recentes nos relacionamentos. Perceber a dimensão do problema é o primeiro passo para mudar para melhor.
Em suma, falar sobre o que sente pode aliviar o peso emocional que possa estar a sentir, ajudá-lo a obter uma caracterização mais completa de como se encontra, e começar a sua recuperação.

Porque temos medo do diagnóstico
Podemos ter a ilusão de que, enquanto não falarmos do “monstro”, e enquanto ele não tiver um nome, não existe. Evitamos imaginar o que o diagnóstico de uma doença pode significar na nossa vida, para a nossa família, para o nosso trabalho, e para o que tínhamos imaginado para o nosso futuro.
No entanto, perceber que o mal-estar que sentimos corresponde a uma entidade cientificamente reconhecida, com um padrão de sintomas objectivável, e que as pessoas que recebem tratamento são capazes de recuperar, pode fazer-nos ganhar confiança e esperança. Compreendemos e lidamos melhor com o que tem um nome e uma face, e que não tem, afinal, contornos tão negros como pensávamos.
O diagnóstico é o primeiro passo para um tratamento que, como expusemos acima, é tanto mais eficaz quanto mais precoce. Reconhecer o problema é o início da solução.
O diagnóstico é o início, e não o fim do caminho.
Pelo estigma associado à doença mental
O estigma é uma barreira importante ao acesso atempado aos cuidados de saúde mental (6). Não é raro ouvirmos a pergunta “não estou a ficar maluco, pois não?”. Mais do que simples desconhecimento, o estigma implica um receio activo e uma atribuição de significados negativos à doença e à pessoa com doença mental (7).
Acontece encontrarmos pessoas que recorrem a consultas de várias outras especialidades médicas (a Neurologia é um destino clássico) antes de recorrer à consulta de Psiquiatria, pelo estigma que está associado a esta consulta. Embora faça sentido uma investigação para descartar a presença de outras doenças que possam estar na origem dos sintomas, os psiquiatras estão também preparados para fazer esta avaliação diagnóstica. Se os sintomas são típicos de doença mental, não faz sentido procurar outra especialidade. Tal como alguém com sintomas abdominais procura um gastroenterologista, ou alguém com problemas de pele vai ao dermatologista, uma pessoa com alterações emocionais, do pensamento ou do comportamento deve consultar um psiquiatra. Ir a uma consulta de Psiquiatria não é sinal de perda de capacidades ou de discernimento.

Por receios relacionados com o tratamento
A descrença relativamente à eficácia dos tratamentos em Psiquiatria, e os mitos associados à sua utilização e efeitos secundários, poderão contribuir para uma hesitação em recorrer à consulta de Psiquiatria, e dificultar a adesão ao tratamento (8).
No entanto, a maioria dos tratamentos actualmente utilizados é eficaz e segura, quando empregue de uma forma adequada à pessoa e ao diagnóstico (9). Para além disso, o tratamento em Psiquiatria envolve não só a prescrição farmacológica, mas também o aconselhamento relativamente a medidas de estilo de vida e encaminhamento para acompanhamento em psicologia ou psicoterapia.
…Porque são Psiquiatras
A imagem inspirada em Freud, de um homem de barba e cachimbo na mão, vagamente interessado e pesadamente paternalista, faz ainda parte do imaginário de muitos doentes. Por outro lado, há, infelizmente, más experiências prévias, contactos difíceis ou que não corresponderam às expectativas de quem fez um esforço para expor as suas preocupações mais íntimas e sentiu que a resposta de quem o ouviu não estava à altura. Felizmente, assistimos à evolução da relação médico-doente para um modelo em que os doentes são elementos activos nas escolhas relativas ao seu acompanhamento e tratamento (10). Para além disso, há profissionais com características distintas. Há sempre a possibilidade de uma experiência reparadora, de encontrar um psiquiatra com quem se identifique e que sinta que o pode ajudar.

Se já sentiu alguma das dificuldades acima descritas, e se já hesitou em ter uma consulta, talvez esteja na altura de pesar, na balança dos seus pensamentos, os benefícios de ter o tratamento necessário e de viver uma vida mais saudável e feliz.
Nunca é tarde para pedir ajuda.
Referências bibliográficas:
- Yu M, Tan Q, Wang Y, Xu Y, Wang T, Liu D, Chen D, Deng P, Huang C, Liang X, Liu K, Xiang B. Correlation between duration of untreated psychosis and long-term prognosis in chronic schizophrenia. Front Psychiatry. 2023 Feb 16;14:1112657
- Bukh JD, Bock C, Vinberg M, Kessing LV. The effect of prolonged duration of untreated depression on antidepressant treatment outcome. J Affect Disord. 2013 Feb 15;145(1):42-8.
- Perris F, Sampogna G, Giallonardo V, Agnese S, Palummo C, Luciano M, Fabrazzo M, Fiorillo A, Catapano F. Duration of untreated illness predicts 3-year outcome in patients with obsessive-compulsive disorder: A real-world, naturalistic, follow-up study. Psychiatry Res. 2021 May;299:113872.
- Wang PS, Angermeyer M, Borges G, Bruffaerts R, Tat Chiu W, DE Girolamo G, Fayyad J, Gureje O, Haro JM, Huang Y, Kessler RC, Kovess V, Levinson D, Nakane Y, Oakley Brown MA, Ormel JH, Posada-Villa J, Aguilar-Gaxiola S, Alonso J, Lee S, Heeringa S, Pennell BE, Chatterji S, Ustün TB. Delay and failure in treatment seeking after first onset of mental disorders in the World Health Organization’s World Mental Health Survey Initiative. World Psychiatry. 2007 Oct;6(3):177-85.
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- Harbishettar V, Krishna KR, Srinivasa P, Gowda M. The enigma of doctor-patient relationship. Indian J Psychiatry. 2019 Apr;61(Suppl 4):S776-S781.